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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Uma História Singular

Há algum tempo eu queria publicar aqui, boas histórias de esportistas, amadores ou profissionais. Li sobre alguns Corredores, Triatletas, Pilotos, etc, mas me faltava “aquela história”. Faltava uma que me tocasse para começar essa série de posts.

Mas aí aconteceu! “Aquela história” caiu em minhas mãos. Com a devida permissão do protagonista, Marcelo (Lelo) Apovian, eu divido com vocês essa linda história. A narrativa segue na primeira pessoa, pois o que transcrevo aqui é uma matéria escrita pelo Lelo para a Revista Runners de novembro 2009. Eu lhe garanto que você vai se surpreender com esse depoimento! 

“Antes de escrever sobre minha amadora carreira de Corredor e Triatleta, preciso contar minha história como esquiador. Comecei a esquiar aos 9 anos com minha família, na Itália. Resumindo, fui 3 vezes campeão brasileiro de esqui, vice-campeão brasileiro de snowboard, participei de 4 Mundiais e 2 Olimpíadas de Inverno.

Em 1993 sofri meu primeiro acidente. No Mundial de Esqui do Japão tive uma queda em um dos saltos em que a velocidade era de 130km/h. Rompi o ligamento cruzado anterior e o menisco do joelho esquerdo. Fui operado no Brasil no dia 1º Abril e em 1º Agosto estava competindo na Argentina. Cada vez mais as corridas faziam parte da minha vida para me preparar para as temporadas de esqui. Quando as provas ainda eram poucas e quase não havia corredores, fiz alguns 6km para 21min. No início de 1997, fui buscar ajuda de uma das poucas assessorias esportivas da época, a MPR.

Em Nagano (Japão) tive a melhor colocação, até então, de um brasileiro na história dos Jogos Olímpicos de Inverno, 37ª colocado. Mas foi no dia 10 setembro 1999 que minha visão da vida mudou radicalmente. Estava há 5 dias em Las Leñas, Argentina. Eram 11h quando, sem perceber, saltei em um grande buraco que o acúmulo de neve criou. Estava perigoso. Subi a montanha mais uma vez, a neve estava espetacular. Comecei a descida, estava em outro universo – o vento, a liberdade, o sol, estava livre. É essa a sensação de quem esquia. Mas a montanha, como o mar, também prepara armadilhas. Errei ao calcular que o buraco perigoso que tinha saltado pouco antes não era o fim da descida. Quando percebi, estava voando.

Caí. Primeiro ouvi um barulho enorme, parecia uma árvore sendo partida. Tive medo de quebrar o pescoço, rolei, não parava de cair, tive muito medo. Ao parar, quis levantar rápido para ver se tudo estava no lugar mas não conseguia ficar de pé. Quando olhei para minhas pernas, vi que o pé esquerdo estava virado 180 graus para trás, sem ligação com o corpo. Para piorar, instantaneamente, me lembrei do Lars Grael quando sofreu o acidente que o fez amputar a perna: ele disse não ter sentido dor. Eu também não sentia nenhuma!

Os amigos chegaram rápido. Ficaram desesperados quando olharam minha perna. Comecei a buscar soluções. Pedi para chamarem a maca, queria um remédio para dor. Sabia que em breve ela viria. O resgate chegou em minutos. Senti e ouvi os ossos baterem entre si. Já no hospital, o médico falou em amputação. Não acreditei. Queria voltar logo para ser operado em São Paulo.

Difícil descrever os primeiros 30 dias. A dor, o sofrimento, a falta de liberdade... Tive o que os médicos chamam de esmagamento ósseo na tíbia e fratura dupla na fíbula. Fiz minha 1ª cirurgia no dia 15 setembro para colocar uma haste intramedular. Um mês sem levantar, dois de muleta e mais dois com andador e bengala. Lembro quando o médico da família me visitou no hospital. Perguntei quando poderia voltar a esquiar, a resposta foi dura: eu deveria torcer para voltar a andar normalmente. Tinha perdido do joelho para baixo 3 centímetros de perna, além de outros 3 por uma deformidade lateral, pelo tipo de fratura. De um lado tinha 1,76m de altura, do outro, 1,70m.

O tempo foi passando e a perna não ficava boa. Para “estimular” o osso, deveria fazer ginástica e caminhar. Ia para a USP de gesso e bike e fazia fisioterapia. Em 6 meses eu deveria ter tido alta. Já tinha passado 1 ano e o osso não colava. Estava manco, tinha muita dor. 1,5 ano depois o médico me disse que eu deveria me acostumar, talvez fosse assim para sempre.

Eu podia ler no rosto de cada pessoa a descrença em minha recuperação. Meu técnico e amigo Marcos Paulo Reis sugeriu que eu consultasse o médico dele. Fui, não podia ficar daquela maneira, eu era muito ativo para não poder mais fazer esporte, nem mesmo caminhar direito. O Dr. Marcelo diagnosticou que, além do encurtamento de 6cm na perna, eu tinha uma falha óssea que poderia gerar uma nova fratura. E o mais grave: tinha o que a Medicina chama de pseudoartrose, a não consolidação do osso. O médico em quem confiei durante 2 anos tinha errado e me deixado aleijado. Eu teria que fazer mais uma cirurgia e começar tudo de novo.

O tratamento indicado era a “gaiola” ou Ilizarov. Uma invenção de um médico russo que operava anões e fazia com que crescessem até 40cm. Teria também que fazer enxerto de osso, tirar da bacia para colocar na perna. O objetivo era também alongar os 6cm perdidos. Fiz a cirurgia dias antes do Natal de 2001. Estava feliz, dessa vez estava certo de que ia ficar curado.

Os dias foram passando. Pela primeira vez comecei a reclamar da vida, da injustiça que Deus estava cometendo comigo. Pior que a dor física (que era enorme), era a dor emocional. Doze dias depois da cirurgia, comecei a passar mal, com febre, dor no corpo. Do início da febre até o médico me atender no hospital, se passaram 7 horas. Tempo suficiente para meu corpo fosse consumido por uma brutal infecção hospitalar. Dois dias depois, fui operado novamente para retirar 2 pinos que eram o foco do problema. Quarta cirurgia. Dessa vez fiquei acordado e pude ver o que é uma cirurgia ortopédica. Não queiram saber.

A partir daí nunca mais reclamei de nada. Tudo que é ruim sempre pode piorar. E o pior ainda estava por vir. O tratamento para alongar o osso é parecido com uma tortura. O osso teria de crescer e rápido, recuperar os 6cm em 30 dias. Tinha hastes atravessando a pele e o osso. A cada 4 horas, com uma espécie de chave de roda, eu devia girar um parafuso. Assim o osso ia alongando e, antes de consolidar, eu girava mais até chegar ao tamanho do osso da outra perna. A dor só não era constante, pois na hora de apertar o parafuso ela ficava mais aguda.

Permaneci quase 1 mês sem dormir. Tentei de tudo, remédios, calmantes, mas não dormia mais que 2 horas. A única coisa que me relaxava era uma massagem no pé da perna quebrada. Minha mãe e namorada dormiam no pé da minha cama, fazendo massagem no meu pé.

Mais uma etapa do tratamento estava cumprida, as deformidades da perna faziam parte do passado e restava esperar a consolidação do osso, que ocorreria em 4 ou 5 meses.

Mas sem uma explicação técnica, após 9 meses usando a “gaiola”, novamente ocorreu a não consolidação (pseudoartrose). O osso cresceu, mas na hora de colar, o ciclo foi interrompido. Eu não sabia o que decidir. Meu médico tinha indicado outra cirurgia para proceder a um novo enxerto de osso. Ninguém sabia o que fazer. Tínhamos uma alternativa, ir aos Estados Unidos ouvir outras opiniões. Por sorte, nosso ortopedista tinha um congresso em San Diego e para lá embarcamos.

No último dia do evento, virei atração. Chamaram-me no palco e médicos de vários países puderam me avaliar. A medicina ortopédica é desenvolvida em países que sofreram ou sofrem com guerra. Por isso, estar com médicos da Rússia, Alemanha, Japão e Estados Unidos era precioso para termos uma idéia de como agir. Entretanto, depois de mais de 1h com os melhores ortopedistas do mundo, cada um indicou um tratamento diferente. Assim, saímos da Califórnia mais confusos que quando chegamos.

Na volta fomos almoçar com o médico da família, que ficou no Brasil e estava preocupado com as notícias. Explicamos o que ocorreu no congresso e foi quase na sobremesa que ele começou a falar. Sua idéia para resolver o problema era a mais louca de todas. O Dr Antranik Manissadjian queria usar um remédio que é aplicado em casos de câncer ósseo. Sua função é estimular o crescimento das células que não foram atingidas pela doença. Deveria ser feito no setor de Oncologia do hospital, a cada 15 dias. Tinha estado com os melhores ortopedistas do mundo e ninguém tinha sugerido essa solução. Como acreditar num pediatra? Nunca mais vou esquecer a frase dele: “Nunca ninguém utilizou esse tratamento, mas vai funcionar, eu garanto. Não é um experimento, só preciso de 3 meses, me dê esse tempo”.

Fiz uma conta simples. Se seguisse com o ortopedista, seriam no mínimo mais 6. Com o pediatra, no máximo 3 e com a vantagem de não ter que fazer a quinta cirurgia. O sucesso não era garantido em nenhuma das opções. Talvez eu tivesse que ficar com a perna “ruim” o resto da vida. Mas tinha certeza de que iria ficar bem. Minha cabeça foi uma grande aliada.

Segui o tratamento do Dr Antranik, com as aplicações do remédio de um câncer que nunca tive. Em junho de 2003, dei entrada no hospital para finalmente retirar a “gaiola”. Meu tratamento tinha chegado ao fim. Foi um dia especial. Uma emoção para toda a família. Cheguei em casa andando, sem nada na perna. Estava curado e sem nenhuma deformidade.

No mesmo ano, em setembro, fui esquiar novamente. Fazia 4 anos que não via a neve e não tinha a sensação de liberdade, do vento na cara, do frio na barriga e das pontas dos dedos congeladas. Quase não dormi de ansiedade. Acordei cedo, estava um lindo dia. Quando comecei a descer, estava inseguro, sem noção das minhas reações, mas após 2 ou 3 curvas tudo voltou ao normal. Lembrei-me de todos os movimentos, é impressionante como a cabeça memoriza as coisas boas e apaga as ruins. Esquiei uma semana inteira, sem dor e com todas as boas sensações novamente.

Foram 3 anos e 9 meses de tratamento, 5 cirurgias, mais de 30 pinos e muita dor. Ainda em 2003 fiz meu primeiro meio Ironman em Pirassununga: 4h56min, quase morri. Em 2004, fiz minha primeira maratona em Berlim, 2h46m. Em 2005, corri minha primeira prova de 10km em 35 mins. Ganhei algumas provas de duatlo. Todos os anos vou esquiar, pelo menos 1 semana. Em 2009 corri a maratona de Berlim em 2h37min e bati o tempo do meu amigo Portuga (Amílcar Lopes Jr.), companheiro de treino na MPR. Tudo isso foi conseguido em equipe. Tenho que agradecer ao meu pai, que sempre esteve próximo e teve condições de pagar um tratamento tão longo e com tantas variáveis. À minha mãe pelas massagens, à então namorada pela paciência, a todos os médicos que me curaram e a Deus. A vida é uma só e não vou deixar de fazer as coisas que amo. Aproveite você também.


Essa singular história que hoje Marcelo Apovian, Publicitário e Empresário, compartilha em suas disputadas palestras para empresas, soma-se a outras belíssimas histórias de outros 4 amigos Corredores e se transforma em um livro que acabei de ler e que me foi indicado pelo próprio Lelo – Operação Portuga: 5 homens e um Recorde a ser Batido – Sérgio Xavier Filho, Arquipélago Editorial


É fantástico! Se vocês tiverem que optar por ler apenas um livro esse ano, recomendo fortemente que seja esse. Ele reúne histórias que emocionam, de amizade e camaradagem, de chegar ao próprio limite por eles mesmos e pelos amigos, de superação e muita determinação. De Amadores, esses “meninos” só têm o fato de não terem o esporte como fonte de renda, pois suas conquistas e histórias são absolutamente profissionais.

Em outro post, vou publicar vários links do blog da Runners nos últimos anos que contam a história desse desafio, o “Desafio ao Portuga”, a brincadeira que virou coisa séria, rendeu o livro e várias demonstrações de amor ao esporte e à vida.

Agora que vocês já conhecem a história do Lelo, conheçam também o Lelo nestes 2 vídeos que detalham alguns dos seus feitos. 

Um deles, o making off da campanha de lançamento do Asics Speedstar5, eu já tinha publicado no blog em fevereiro.
No outro, ele detalha trecho a trecho a meia-maratona da Asics em SP que acontecerá dia 7 Agosto. Prova na qual como sempre, ele deve estar se preparando para bater seu próprio recorde!






LELO, já que você disse que passaria aqui no blog para ler como sua linda história foi transcrita, aproveito para, publicamente, confessar 2 coisas:

- sua história me fez lembrar até onde gente forte, física e emocionalmente, pode chegar nessa vida
- não tenho a menor dúvida de que sua vida tem vários propósitos. Mas se ela tivesse apenas um, seria servir de exemplo para os outros. Somos, em geral, carentes de bons exemplos. Você, definitivamente, é um deles.

Parabéns prá você é pouco! Prefiro te dizer que admiro absurdamente sua força, seu talento e sua obsessão pela vida.

15 comentários:

Marcia disse...

Que história maravilhosa, que exemplo de vida!! De que dificuldade podemos reclamar na vida depois de ler um depoimento desse!
Parabéns, parabéns, parabéns. Agora quero ver esse livro...
Marcia

Moa disse...

Muito bacana essa história. Muito bom o texto também. Superação e determinação exemplares mesmo.
Bela dica de livro. Vou ler !!
Duas coisas impressionantes: 1) um médico chegou a falar em amputação !!! 2) os resultados dele nas corridas em tão pouco tempo após todo esse trauma.
Parabéns para vc pelo texto bem escolhido e para o Lelo pela sua obstinação.

Fernando disse...

Impressionante e motivador de verdade.
Uma luta e um final feliz muito merecido. Excelente compartilhar essas historias de superaçao.
Parabens pelo post, muito bom ter acesso a esse tipo de leitura.
Abraco a todos, continuem correndo!

Antonieta disse...

Grande Lelo!
Sua história espalha fé, confiança e superação de desafios!!

Gratidão, Rivânia, por compartilhar essa vida conosco!!

Cris Andrade disse...

Eita, que história espetacular!
Rivs, como foi que vc chegou nessa história, mulher??

Super Lelo, que gás vc tem! Queria ter metade disso... correr deve fazer mesmo bem... minha amiga nessa alegria toda que tem e agora essa história!!! Os videos sao demaissss!

beijao!

Lelo disse...

Rivania,

Muito obrigado pela mensagem do seu blog. Fiquei feliz, de verdade !
Tudo no vida tem um porque. Durante o tratamento era difícil de enxergar, mas hoje vejo que cresci como homem e pessoa.
Também acredito que ajudei pessoas com problemas parecidos a enxergar a luz no fim do túnel.

Anônimo disse...

Não precisa dizer que arrepiei no final.
Pra mostrar que nossos enormes problemas no final se resumem a nada!
Show!!!
Bjs, Deia

Glaucia.Vilasboas disse...

Incrível!!!
estou cansada de ver gente que quase morre de tanto reclamar e gemer por gripe ou qualquer bobagem da vida... isso sim é exemplo de superação, garra, determinação... d+!!! Fiquei fã deste cara... bjo!

Rivis disse...

Agradeço a todos pelos comentários, elogios, manifestações!
Recebi alguns emails e msgs no Face e o consenso é que essa grande experiência precisa mesmo ser compartilhada pois gera, no mínimo, reflexão!

Obrigada aos meus vários amigos que compartilharam o link em suas páginas no Face. Foram dezenas de compartilhamentos.

LELO, nós é quem te agradecemos!

Beijo pra vcs! E muita saúde, sempre!

Renata disse...

Incrível!
O relato é lindo, os vídeos são lindos, o Marcelo é lindo, o final de tudo mais lindo ainda!!!
Vou parar de falar que não dá tempo de fazer ginástica porque dá prá fazer qq coisa com o propósito certo.
Q vontade de sair correndo agora!
Obrigada a Rivania por dividir esse post.
Comprei o livro na internet hoje, na Cultura online para quem interessar.

Emanuelle disse...

Fantástica história de superação. Valeu a pena esperar!
Acredito que a partir desse exemplo, alguns conceitos de Vida mude. E a hora de parar de reclamar da vida, é AGORA!
Parabéns

Ps:. Colírioooooo

Vanessa Freire P. L. De Nadai disse...

uma lição de vida que serve de estimulo e força para aqueles momentos em que pensamos em desistir....

Ana Paula disse...

Como a Rivs incentivou, transcrevo aqui para o blog o email que enviei a ela... "Rivs, fantástica a história de superação do Lelo. E que astral que ele tem!!
Contagia mesmo à distância!! Muito bacana! Obrigada pelo presente!"

Lelo disse...

Eu por aqui de novo !!
Obrigado a todos pelas mensagens.

Thelma disse...

Simplesmente fantástico!!Voce tem toda razão: é exemplo, é garra, é vida! Bjs
Thelma